Domingo em construção
E
as cortinas do domingo se abriram revelando uma chuva fraca mas laboriosa sobre
o palco. Afastamos a cortina da porta da varanda e contemplamos nossa praia ir
sumindo em gotas, espalhada pelas ruas e telhados, acumulando-se nos buracos e
envernizando as árvores. A chuva e a praia têm se digladiado com freqüência em Ilhéus
e para a nossa infelicidade a chuva tem vencido de lavada (perdoem-me essa
referência pobre). Não é que queiramos a seca, de forma alguma, Ilhéus precisa
da chuva para manter a beleza que os governantes ainda não lhe tiraram, mas ao
menos queremos o domingo. Que algum ditador do momento decrete chuva em Ilhéus
somente de segunda a sábado e quando não funcionar nos explique sorrindo com
uma balela agradável como só os bons mentirosos sabem fazer.
E
era preciso fazer o domingo que estava vazio diante de nós. Ocupa-mo-nos com
coisas chatas e trabalhosas que mais pareciam de segunda. O domingo nos espiava
enrolado em um cobertor, estava doente, com um ar de “por que vocês estão
fazendo isso comigo?”. Pensamos em virar o jogo à tarde: tomar uma água de
côco, ir à banca de revistas, comprar frutas... bom, isso não parece virar o
jogo, isso nem ao menos é perder de pouco! Mas à tardinha havia um aniversário
de criança para ir. No mínimo eu e minha mulher ficaríamos fofocando sobre os
outros convidados ou testemunharíamos as coisas estranhas e inesperadas que as
crianças fazem nesses eventos.
À
tarde o domingo parecia uma brisa suave, a chuva cessou e nos deu uma
temperatura agradável, pelo menos para os calorentos. Fomos nós construir o
restante do nosso domingo pacientemente, como bons operários. Fomos à barraca
de água de côco mais doce, onde a dona parece não gostar de mim. Eu finjo que
gosto do prefeito e ela se enfurece, ela também não gosta do governador e da
presidente. Mas se não gosta de mim e de todos esses outros fico na dúvida se
ela tem bom ou mau gosto. Antes de irmos para o carro uma formiga mordeu a
perna da minha mulher e uma reação alérgica instantânea fez toda a área ficar
vermelha. Chegamos ao consenso de que alguns seres não são criaturas de Deus. O
mesmo devem ter pensado, se pudessem, os pássaros que acidentalmente quase
atropelei a caminho da barraca de frutas. Mas, no entanto, o veneno existe e
está em nós e na natureza, não fomos criados apenas com o que pode ser
considerado como bom, Deus criou o sabor do picolé de abacaxi e os sete pecados
capitais. Ah, mas eu só penso essas besteiras porque meu domingo não teve
praia. Esses pensamentos eram abstinência de praia. Diante do mar a compreensão
se resigna diante da contemplação, esse é o principal raquitismo do homem do
litoral.
Depois
conversamos sobre que horário seria chique para chegar em um aniversário
marcado para às 17:30 hs. Os chiques nunca chegam no horário pois isso
demonstra ansiedade e impressão de que não se tem outras coisas legais para
fazer. Normalmente concordamos em chegar meia hora após o tempo marcado e
acabamos chegando uma hora depois. Não porque somos TÃO chiques mas porque é
domingo e nesse dia a gente faz tudo com o dobro do tempo. Às 19 hs chegamos ao
aniversário e vimos que ultrapassamos a linha entre a elegância e o desleixo.
Dentro das categorias de horários há uma sofisticada classificação que os
pouparei de ler, mas é digna de uma engenharia nova. O aniversário foi muito legal.
Ruim de aniversário de criança é quando só convidam as mães e só eu vou de
intrometido e fico sem assunto no meio da mulherada conversando sobre assuntos
femininos ( e olhem que eu leio a gloss de vez em quando). Em um certo momento
uma menina veio para a nossa mesa (nenhum de nós a conhecia) e pediu ajuda para
encontrar uma amiguinha dela. Fizemos o retrato falado da amiguinha e não
correspondia a nenhuma criança conhecida, imaginamos tratar-se de uma amiga
invisível. Mesmo assim uma das presentes na mesa foi com a menininha em busca
da criança que não existia e a encontrou. A amiguinha não batia com a
descrição, nunca façam retratos falados com base em depoimentos de crianças.
Terminamos o aniversário vingados do domingo e voltamos satisfeitos para casa.
Pois não é que por uma dessas coincidências do destino o vizinho estava fazendo
uma festa de aniversário infantil? Pois não é que a festa dele terminou bem
mais tarde que a que nós fomos? O meu diagnóstico é que se tratava de uma festa
para adultos tendo como desculpa o aniversário de uma criança pois do meu
quarto eu só ouvia funk e arrocha. A menos que o Mr. Catra tenha lançado um CD
de músicas infantis ! O domingo piscou o
olho marotamente para nós. Mas é isso mesmo, às vezes você diz para o cachorro
sentar e ele só coça as pulgas.
E
o domingo se encerrou na eminência de seus altos e baixos em toda sua majestade
e mistério, como uma força da natureza, adiante da compreensão, nos limites e
além da contemplação. O domingo é uma criatura de Deus.