há muito tempo atrás, embora o texto esteja todo no presente, em uma galáxia muito distante, um homem percorre uma rua de classe média e para em frente a uma das casas. toca o interfone.
EMPREGADA
- sim?
- eu vim falar com o sr. Paulo.
EMPREGADA
- quem é?
- vc quer meu nome ou o q eu sou?
EMPREGADA
- hein?
- meu nome é meteoro. acho q posso ser considerado um filho dele.
EMPREGADA
- mete o q?
- meteoro. ele me conhece. diga q o meteoro está aqui.
EMPREGADA
- diego, deixe de brincadeira, eu vou abrir a porta p/vc entrar.
a porta é destrancada e o homem entra. ñ esperem descrições maiores do interior da casa, ñ sou arquiteto. contentem-se com: "é uma casa de classe média típica". imaginem aqueles caminhos com aquelas pedras quadradas ladeadas por grama findando-se em uma pequena calçada, esta seguida por degraus. no topo uma porta de blindex. ei, eu estava com preguiça de fazer e ñ ficou tão mau qto eu imaginava. meteoro entra e senta no sofá da sala. a empregada vem ao seu encontro, cavalheirescamente meteoro se levanta qdo ela adentra o recinto.
EMPREGADA
- o q é isso, quem é vc?
meteoro tem a aparência de um homem de 30 anos com uma margem de erro de 2 anos. tem cerca de 1,90 m e um queixo protuberante.
METEORO
- eu sou meteoro, vim falar com o sr. Paulo.
EMPREGADA
- ele sabia q vc vinha?
METEORO
- acho q ele nunca pensou em me encontrar.
EMPREGADA
- isso é muito estranho. eu pensei q era o neto dele q às vezes engrossa a voz no interfone e faz brincadeira. ele passa aqui depois da escola...
METEORO
- chame o sr. Paulo q ele esclarecerá tudo.
EMPREGADA
- como é o seu nome mesmo?
METEORO
- meteoro.
EMPREGADA
- seu paulo, tem um sr... um mete qualquer coisa querendo falar com o sr!
o homem, q já havia sentado de novo, parece ansioso. a mulher então fala:
EMPREGADA
- isso é uma brincadeira do pessoal do bar né ? vcs vive fazeno brincadeira um com outro...
METEORO
- quem é o pessoal do bar?
paulo desce as escadas q estão em um canto da sala e ñ acredita no q vê. chama a empregada e diz p/ q ela se preparasse, se ele a chamasse de norminha era p/ela chamar a polícia. isso rendeu alguns minutos de conversa pois a empregada disse q ñ se chamava norminha. paulo disse q sabia disso, é claro, q aquilo era só um código. mas ela insistiu q ñ se chamava norminha, q o nome era edicleusa e o "codo" devia ser edicleusa. ele respondeu q ela ñ ia diferenciar se ele a estava chamando de verdade ou se estava dizendo um código p/chamar a polícia. ela afirmou: "é só dizer: edicleusa, chame a polícia". vendo q aquela conversa iria longe, paulo falou: "é uma ordem, qdo eu disser 'norminha, traz o café', aí vc traz o café e depois chama a polícia".
EDICLEUSA/NORMINHA
"agora é p/trazer café tb? ñ era só p/chamar a polícia?"
PAULO
"senão ele pode desconfiar. faz o q eu tô mandando e pronto"
meteoro observava com curiosidade os dois cochichando. depois paulo veio ter com ele:
PAULO
- pois não, amigo? de onde o conheço?
agora meteoro está em pé e o q paulo vê é um homem com aparência de 30 anos com uma margem de erro de 2 anos. tem cerca de 1,90 m e um queixo protuberante. ah, ele usa um capacete amarelo, óculos de soldador e está de collant azul, com o q parece ser o desenho de um meteoro caindo no centro do peito. as luvas, a capa e a cueca por cima do collant tb são amarelas, como o capacete. calça um par de pés de pato com rodinhas de patins embaixo.
METEORO
- olá, sr Paulo, meu nome é meteoro. eu sou um personagem de quadrinhos q o sr criou qdo tinha doze anos.
PAULO
- pois muito bem, amigo, vamos p/o meu escritório ! norminha, por favor, traz um café. entendeu, NORMINHA? traz... um... café!
norminha, digo, edicleusa, sai em direção à cozinha.
os homens entram no escritório e meteoro fala:
METEORO
- vc se lembra de mim, ñ?
PAULO
- lembro, claro q eu lembro...
METEORO
- vc me criou qdo tinha doze anos.
PAULO
- isso faz tempo.
METEORO
- estou vendo, vc tem até um neto agora.
PAULO
- e pq vc veio me ver?
METEORO
- eu estava com uma série de dúvidas.
PAULO
- o q vc quer saber?
METEORO
- pq vc me criou?
PAULO
- amigo, se faz tanto tempo... eu ñ tenho como me lembrar...
METEORO
- vc ñ lembra de mim. está claro. vc me criou com uma série de habilidades, uma delas era saber qdo alguém estava mentindo. qdo alguém mente eu sinto uma dor forte no dedão esquerdo e qdo vc falou q se lembrava de mim eu senti como se tivessem batido no meu dedão com uma marreta.
PAULO
- taí um poder q eu ñ gostaria de ter. eu já teria perdido o dedo.
METEORO
- vc tinha um amigo, édson, q era desenhista...
PAULO
- édson... fazia curso de desenho na casa da cultura!
METEORO
- isso. vcs liam muito gibi e decidiram criar uma história em quadrinhos.
PAULO
- sim... fale mais.
METEORO
- primeiro vc criou minha origem. eu era o primeiro astronauta brasileiro a ir p/júpiter, na época vc ñ fazia ideia da besteira de mandar alguém p/júpiter, mas como só se falava em marte, vc queria ser original.
PAULO
- de fato, marte é um planeta legal, mas júpiter é o maior de todos, pq a ficção o ignora tanto?
METEORO
- eu estava em minha nave espacial, indo p/júpiter, qdo um meteoro a atingiu e com isso eu ganhei super-poderes.
PAULO
- sim, só q édson criticou essa ideia. ele disse q isso seria inverossímil: se o meteoro explodisse a nave é claro q vc morreria junto. mudei sua origem: o meteoro só passaria perto da nave e alguma coisa nele faria vc ter poderes. lembrei ! q imaginação eu tinha aos doze anos!
METEORO
- p/falar a verdade isso foi copiado do quarteto fantástico.
PAULO
- foi?
METEORO
- vcs até comentaram: "isso está igualzinho ao quarteto fantástico".
PAULO
- o cara q criou o quarteto era bom tb, hein?
METEORO
- stan lee.
PAULO
- hein?
METEORO
- stan lee criou o quarteto fantástico. vc parou de ler quadrinhos?
PAULO
- sou contador agora. minha leitura é só de balanços e declarações.
METEORO
- pq vcs ñ levaram a ideia adiante?
PAULO
- acho q falta de tempo. meninos de 12 anos têm muitas ocupações. eu tinha o hobby de chegar em casa, almoçar e dormir a tarde toda. o édson fazia curso de desenho. o fim-de-semana era p/jogar futebol. tudo muito corrido...
METEORO
- mas vc só me criou e ñ fez nenhuma história, eu estou parado esse tempo todo !
PAULO
- eu lembro q eu só gostava de criar o personagem. escrever a história é um saco. eu era criança, essa coisa de pegar o biscoito recheado e só comer o recheio... e queríamos ganhar dinheiro com o gibi, mas o édson já ganhava muito vendendo desenhos de mulheres nuas p/a gente.
METEORO
- ele desenhava mulheres nuas?
PAULO
- as mais perfeitas de q me lembro. ele olhava as meninas da sala e as desenhava nuas, claro q com alguns melhoramentos, nenhuma delas era um modelo de beleza. nós fazíamos pedidos e ele desenhava. ele as deixava com o corpo da sônia braga. lembro q eu diminuí minha compra de gibi. eu colecionava quase todos, parei de comprar o capitão américa e herois em ação... minha memória voltou. eu gastava muito dinheiro comprando os desenhos dele. ele era um tipo de cafetão.
METEORO
- e meu dedão parou de doer. mas pq ñ consegui falar com o édson?
PAULO
- bem, aí só se eu tivesse te dado poderes mediúnicos. há dois anos encontrei o édson no facebook, ele se formou em medicina e parou de desenhar. só um instante, preciso falar com a minha empregada.
paulo abre a porta e grita: "norminha, o café!"
METEORO
- ela ñ virá.
PAULO
- o q?
METEORO
- ela ñ virá. eu tenho superaudição, lembra? ouvi tudo q vcs conversaram. e esse óculos me dão visão de raio-x. eu olhei agora p/a cozinha e há um bilhete na porta da geladeira: "seo paulu sai pra compra cafe edicleusa normia".
PAULO
- ah, ótimo, ótimo.
METEORO
- a polícia de pouco adiantaria. vc me deu indestrutibilidade, as balas iam ricochetear, seria um perigo. vale o mesmo p/o revólver q vc tem na segunda gaveta dessa mesa.
PAULO
- onde estávamos?
METEORO
- édson, facebook...
PAULO
- o édson morreu em um quarto de motel cercado de desenhos de mulheres nuas...
METEORO
- meu dedão...
PAULO
- infelizmente ele morreu em uma cadeira de balanço, assistindo à novela das oito. enfarte. desculpe, sua presença me instigou a imaginação.
METEORO
- pois é, sabe-se lá de quem vc copiou isso.
PAULO
- o q vc bebe, meteoro?
METEORO
- eu sou um típico personagem de quadrinhos da década de 60, q era o q vc lia na década de 70 no brasil. eu ñ bebo, ñ fumo e a partir daí meu cérebro trava. há muitos espaços a preencher...pq vc ñ me desenvolveu mais? eu nem tenho namorada...
PAULO
- bom, 12 anos ñ é idade de gente, é idade de whisky, igual a esse aqui. com 12 anos eu ainda ñ sabia direito o q fazer com uma mulher. depois aprendi mais ou menos. com a idade esqueci o pouco q aprendi. vá por mim, ñ valeria à pena uma personagem criada por mim. melhor vc procurar uma namorada em um bar, será mais proveitoso. espere, o interfone tocou. vou descer e destravar a porta, deve ser meu neto. voltarei em seguida, pode conferir no dedão.
METEORO
- ok. mas pelo meu olfato esse whisky tem uns seis meses.
PAULO
- bom saber, já volto.
enquanto paulo desce, meteoro checa o escritório. uns móveis antigos, livros de contabilidade, um cofre vazio. meteoro sente uma coisa diferente bem no meio da imagem de meteoro q carrega no peito. "é isso a q chamam decepção?"
PAULO
- meteoro esse é meu sobrinho, diego.
DIEGO
- o q é isso? halloween?
PAULO
- o meteoro é um personagem q eu criei qdo eu tinha doze anos, a sua idade.
DIEGO
- eu tenho onze. e vc mandou fazer a fantasia p/um sem-teto vestir?
PAULO
- ñ. difícil explicar...
METEORO
- olá diego, vc tem obedecido a papai e mamãe?
DIEGO
- q porra é essa? olhaqui seu pedófilo se vc encostar a mão em mim eu te mato falou? q conversa de pedófilo é essa?
PAULO
- ñ diego. ele está com uma fala normal de um personagem da década de 60.
DIEGO
- e vc o criou qdo tinha doze anos? ñ foi com 8 ñ? qualé a da nadadeira com patins?
METEORO
- seu avô me deu o dom de voar, mas ñ supervelocidade, p/poder andar em terra em velocidade eu vôo sobre os patins.
DIEGO
- e pq ñ deu logo a supervelocidade p/vc ñ passar vexame com essa roupa?
PAULO
- eu ñ queria q parecesse o super-homem. mas pretendia assegurar sua supremacia na terra, na água e no ar, era uma homenagem às 3 forças armadas brasileiras. depois eu o esqueci.
METEORO
- e pq vc me esqueceu?
PAULO
- bom, eu cresci e outras coisas passaram a ser prioridade. fui p/a faculdade, virei comunista como todo mundo, deixei crescer um
cavanhaque, fiz uma tatuagem, depois precisei pagar as próprias contas e prometi q mesmo assim nunca deixaria de ser comunista, o seria em segredo naquela terra hostil do supérfluo. fui comunista no primeiro dia de trabalho e depois desisti sem perceber. após dez anos olhei-me no espelho e me percebi sem cavanhaque e tatuagem.
METEORO
- o q é comunismo?
PAULO
- um substantivo abstrato. e capitalismo, um substantivo concreto.
METEORO
- fale em linguagem de quadrinhos.
PAULO
- comunismo é o coringa. capitalismo é o lex luthor.
METEORO
- ñ há herois?
PAULO
- bem vindo à realidade.
nesse momento diego desce e vai procurar o q comer na cozinha. "q conversa enfadonha!"
METEORO
- vc está sendo muito vago. eu preciso de mais informação. lembra do dia em q vcs marcaram de conversar sobre a minha primeira história? pq vc ñ foi?
PAULO
- lembro - toma uma dose de whisky - ocorre q eu era apaixonado pela irmã do édson e nós iríamos discutir sua história na casa dele. ela deveria estar lá. eu nem fui p/aula de educação física. senti febre, dor em todos os ossos do corpo, chorei durante toda aquela tarde, delirando.
METEORO
- é a isso q chamam de paixão?
PAULO
- ñ. era dengue. durou 7 dias. a paixão durou um pouco mais, mas depois me apaixonei por outra menina e esqueci a irmã do édson. e o édson.
METEORO
- vc só era amigo dele p/se aproximar da sua irmã?
PAULO
- há motivos bem piores p/se ter uma amizade.
METEORO
- e eu fui criado p/q vc agradasse ao irmão da menina de quem vc gostava?
PAULO
- pelo menos vc foi planejado, ué.
meteoro está zonzo agora, tenta ficar de pé mas os patins o fazem escorregar e cair. diego aparece à porta com um pacote de biscoito.
DIEGO
- vô, eu tenho como deixar esse personagem muito melhor. desse jeito ele ñ venderia nada. tem um amigo meu q desenha em estilo mangá. a primeira coisa seria colocar um revólver na cintura dele, superpoderes ñ são o bastante hj. vc tem q ser meio gângster.
PAULO
- se vc quiser pode levá-lo acho q ele ñ tem mais nada a ver comigo.
DIEGO
- podíamos colocá-lo como um mulherengo e beberrão, mas de bom coração.
METEORO
- estou gostando das opiniões do seu neto.
DIEGO
- ele tb podia ter umas garras...
METEORO
- ele puxou vc, está copiando o wolverine. fale mais filho.
DIEGO
- vamos na casa do meu amigo. eu aproveito p/olhar a mãe dele, q é uma gostosa.
METEORO
- o garoto tem futuro, Paulo. e ele ñ tem medo de mulher como vc...
PAULO
- se é assim então podem ir pq eu tenho um monte de serviço p/fazer.
eles descem a escada. antes de alcançarem o portão paulo ainda ouve:
DIEGO
- na primeira temporada vc já começa com câncer.
METEORO
- o q é câncer?
DIEGO
- vc vai descobrir !
edileuza chega sem nada nas mãos e passa por eles.
EDICLEUSA/NORMINHA
- seu paulo, ñ tem do café q o sr gosta, posso comprar de outra marca?
o coração de paulo se enche de um pouco de ódio. depois se arrefece com as lembranças daquele dia, afinal, bem q aquela poderia ser
"A PRIMEIRA AVENTURA DO METEORO".