terça-feira, 20 de agosto de 2013

Domingo em construção 

        E as cortinas do domingo se abriram revelando uma chuva fraca mas laboriosa sobre o palco. Afastamos a cortina da porta da varanda e contemplamos nossa praia ir sumindo em gotas, espalhada pelas ruas e telhados, acumulando-se nos buracos e envernizando as árvores. A chuva e a praia têm se digladiado com freqüência em Ilhéus e para a nossa infelicidade a chuva tem vencido de lavada (perdoem-me essa referência pobre). Não é que queiramos a seca, de forma alguma, Ilhéus precisa da chuva para manter a beleza que os governantes ainda não lhe tiraram, mas ao menos queremos o domingo. Que algum ditador do momento decrete chuva em Ilhéus somente de segunda a sábado e quando não funcionar nos explique sorrindo com uma balela agradável como só os bons mentirosos sabem fazer.
        E era preciso fazer o domingo que estava vazio diante de nós. Ocupa-mo-nos com coisas chatas e trabalhosas que mais pareciam de segunda. O domingo nos espiava enrolado em um cobertor, estava doente, com um ar de “por que vocês estão fazendo isso comigo?”. Pensamos em virar o jogo à tarde: tomar uma água de côco, ir à banca de revistas, comprar frutas... bom, isso não parece virar o jogo, isso nem ao menos é perder de pouco! Mas à tardinha havia um aniversário de criança para ir. No mínimo eu e minha mulher ficaríamos fofocando sobre os outros convidados ou testemunharíamos as coisas estranhas e inesperadas que as crianças fazem nesses eventos.
     À tarde o domingo parecia uma brisa suave, a chuva cessou e nos deu uma temperatura agradável, pelo menos para os calorentos. Fomos nós construir o restante do nosso domingo pacientemente, como bons operários. Fomos à barraca de água de côco mais doce, onde a dona parece não gostar de mim. Eu finjo que gosto do prefeito e ela se enfurece, ela também não gosta do governador e da presidente. Mas se não gosta de mim e de todos esses outros fico na dúvida se ela tem bom ou mau gosto. Antes de irmos para o carro uma formiga mordeu a perna da minha mulher e uma reação alérgica instantânea fez toda a área ficar vermelha. Chegamos ao consenso de que alguns seres não são criaturas de Deus. O mesmo devem ter pensado, se pudessem, os pássaros que acidentalmente quase atropelei a caminho da barraca de frutas. Mas, no entanto, o veneno existe e está em nós e na natureza, não fomos criados apenas com o que pode ser considerado como bom, Deus criou o sabor do picolé de abacaxi e os sete pecados capitais. Ah, mas eu só penso essas besteiras porque meu domingo não teve praia. Esses pensamentos eram abstinência de praia. Diante do mar a compreensão se resigna diante da contemplação, esse é o principal raquitismo do homem do litoral.
        Depois conversamos sobre que horário seria chique para chegar em um aniversário marcado para às 17:30 hs. Os chiques nunca chegam no horário pois isso demonstra ansiedade e impressão de que não se tem outras coisas legais para fazer. Normalmente concordamos em chegar meia hora após o tempo marcado e acabamos chegando uma hora depois. Não porque somos TÃO chiques mas porque é domingo e nesse dia a gente faz tudo com o dobro do tempo. Às 19 hs chegamos ao aniversário e vimos que ultrapassamos a linha entre a elegância e o desleixo. Dentro das categorias de horários há uma sofisticada classificação que os pouparei de ler, mas é digna de uma engenharia nova. O aniversário foi muito legal. Ruim de aniversário de criança é quando só convidam as mães e só eu vou de intrometido e fico sem assunto no meio da mulherada conversando sobre assuntos femininos ( e olhem que eu leio a gloss de vez em quando). Em um certo momento uma menina veio para a nossa mesa (nenhum de nós a conhecia) e pediu ajuda para encontrar uma amiguinha dela. Fizemos o retrato falado da amiguinha e não correspondia a nenhuma criança conhecida, imaginamos tratar-se de uma amiga invisível. Mesmo assim uma das presentes na mesa foi com a menininha em busca da criança que não existia e a encontrou. A amiguinha não batia com a descrição, nunca façam retratos falados com base em depoimentos de crianças. Terminamos o aniversário vingados do domingo e voltamos satisfeitos para casa. Pois não é que por uma dessas coincidências do destino o vizinho estava fazendo uma festa de aniversário infantil? Pois não é que a festa dele terminou bem mais tarde que a que nós fomos? O meu diagnóstico é que se tratava de uma festa para adultos tendo como desculpa o aniversário de uma criança pois do meu quarto eu só ouvia funk e arrocha. A menos que o Mr. Catra tenha lançado um CD de músicas infantis !  O domingo piscou o olho marotamente para nós. Mas é isso mesmo, às vezes você diz para o cachorro sentar e ele só coça as pulgas.

     E o domingo se encerrou na eminência de seus altos e baixos em toda sua majestade e mistério, como uma força da natureza, adiante da compreensão, nos limites e além da contemplação. O domingo é uma criatura de Deus.

2 comentários:

  1. Esse texto é uma criatura de Deus também. Niélsinei sempre no afã de entrar na Arca de Noé. Muito bom. Abraço.

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  2. aqui o segundo comentário da história do miolo de pote. o primeiro é de evelon, um fake q eu criei. neste segundo resolvi publicar anonimamente um comentário para dar um clima de mistério. vejam q o comentário ficou melhor do q o texto: é q eu sou muito bom em auto-elogios, esporte q pratico desde q aprendi a falar. Abraço.

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